
Os distúrbios alimentares tornaram-se, nos últimos 15 anos, alvo de intensas pesquisas dado o grande aumento de sua incidência na população jovem, principalmente nos adolescentes. Estudos na década de 80, nos EUA, revelaram que a anorexia nervosa (AN) é a terceira doença crônica mais comum entre adolescentes do sexo feminino (10 a 20 mulheres para 1 homem), só perdendo para asma e obesidade. Quanto à bulimia nervosa (BN), afeta 1 a 5% desta população, sendo também mais frequente na mulher. (1-2)
A AN e a BN são complexas do ponto de vista etiológico, são crônicas, de difícil controle, é necessário o acompanhamento a longo prazo e as recaídas são frequentes. A faixa etária mais acometida está entre os 10 e 19 anos(2,3,4) . Pediatras e hebeatras devem estar alertas para os sinais dessas doenças. O diagnóstico e tratamento precoce podem fazer toda a diferença entre o fracasso e o sucesso terapêutico.
Sinais de alerta
Atualmente já se descreve o que poderia ser chamado de "comportamento de risco" para desenvolver um distúrbio alimentar. Em geral, os pacientes bulêmicos ou anoréticos, muito antes da doença estabelecida, já apresentavam alguma alteração do comportamento: hábito de fazer dieta mesmo quando o peso é proporcional a estatura, crítica constante a alguma parte do corpo, e insatisfação, mesmo ao perderem peso, com diminuição gradativa de suas atividades sociais.
É importante lembrar que todas essas modalidades de comportamento são de avaliação muito difícil quando se trata de adolescente, visto que nessa faixa etária, isolamento, problemas de relacionamento, preocupação com o corpo, distorção da auto-imagem, aumento do apetite, modismos alimentares, etc., são característicos e esperados, fazendo parte da chamada "Síndrome da adolescência normal".
Anorexia nervosa
Suas complicações envolvem diferentes orgãos e sistemas, que por sua vez respondem de forma característica ao grau de desnutrição alcançado.
No aparelho cardiovascular ocorre redução da massa cardíaca associada a diminuição da pressão arterial e frequencia cardíaca.
A bradicardia pode ser intensa e chegando a parada, sendo muitas vezes indicação de internação. O trato gastrointestinal apresenta retardo do esvaziamento gástrico e constipação intestinal. Pode haver alterações das enzimas hepáticas, degeneração gordurosa do figado e necrose hepática focal. Sua instalação no período pré-puberal é causa de baixa estatura e atraso da maturação sexual.
A associação entre disfunção hipotalâmica, redução da porcentagem de gordura corporal, caquexia e exercícios físicos excessivos pode ser causa tanto de amenorréia primária quanto secundária.
A osteopenia é secundária ao hipogonadismo hipotalâmico com baixo estrogênio, levando, nos casos mais graves, a fraturas patológicas e compressão vertebral.
Ainda, a alteração hipotalâmica pode afetar os centros termo-reguladores, de regulação da saciedade e a concentração urinária.
Há também hipoglicemia por deficiência de precursores para a gliconeogênese; hipoplasia de medula óssea com leucopenia e anemia.
As causas da anorexia na aparência
Alterações dermatológicas secundárias a desnutrição são semelhantes as observadas no marasmo: pele seca, cabelos quebradiços, alopécia e unhas descamativas.
Com exceção da baixa estatura quando o comprometimento é na fase pré-puberal, todas essas alterações são reversíveis com a realimentação adequada e recuperação da massa corpórea.
Bulimia nervosa
Suas principais complicações clínicas são decorrentes da forma como o paciente elimina o excesso de comida após o episódio de "comer-compulsivo".
Os vômitos repetidos podem determinar quadros de esofagite, gastrite, Síndrome de Mallory-Weiss, esôfago de Barret, hipertrofia de glândulas salivares e desgaste do esmalte dentário. Pneumotorax, pneumomediastino e fratura de costela podem ocorrer por vômitos vigorosos.
Catárticos e laxativos podem causar esteatorréia, pancreatite aguda, hiperamilasemia e elevação da aldosterona sérica. O sinal de Russel (lesão no dorso da mão pelo trauma repetido dos dentes incisivos na provocação dos vômitos) é patognomônico.
Raramente o paciente apresenta comprometimento importante do estado nutricional.
Tratamento
Não pretendemos nos estender nesse aspecto, mas sim oferecer uma visão geral das principais condutas terapêuticas.
Até o momento, tanto a AN como a BN não tem uma etiologia definida.
Causas multifatoriais como fatores pessoais, psíquicos, familiares e ambientais estão envolvidos em sua gênese.
Por esse motivo a terapêutica se baseia num trabalho de equipe multidisciplinar com médicos, psicólogos, psiquiatras e nutricionistas.
É consenso que a perda de peso superior a 40% é indicativa de internação para alimentação parenteral ou enteral para a reposição hidroeletrolítica e recuperação de 1 a 3 Kg.
Nos anoréticos, a sensação de saciedade precoce ou o desconforto pós-prandial indicam o uso de prócinéticos para facilitar o esvaziamento gástrico.
No seu acompanhamento ambulatorial, o uso da ciproheptadina (antagonista da serotonina e histaminérgico) tem mostrado efeitos positivos.
Ansiolíticos, com o intuito de diminuir a ansiedade que antecede a refeição nesses pacientes também estão indicados, com resultados as vezes conflitantes.
Obviamente é necessária a reposição de oligoelementos, vitaminas e sais minerais bem como a adequação da dieta.
O tratamento psicoterápico é indispensável para o sucesso terapêutico.
A associação da família nesse período é ainda discutido. Vários autores são favoráveis à adesão da família como fator determinante de sucesso. Outros determinam a total separação do paciente de seu meio familiar.
Já na bulimia nervosa, a forte associação com desordens afetivas, especialmente a depressão, o uso de antidepressivos tem mostrado sucesso e mais recentemente, o uso da fluoxetina, agonista específico da serotonina, tem despertado interesse, pois além do efeito antidepressivo produz redução do apetite como efeito colateral.
Conclusão:
Distúrbios alimentares continuam sendo um importante problema para o hebeatra. Esse especialista deve estar atento para o diagnóstico dessas condições, visto que a intervenção precoce determina melhora do prognóstico, sem contudo confundir o que pode ser o comportamento normal do adolescente ou mesmo de outras doenças (síndrome de má-absorção, tumores cerebrais, distúrbios hormonais, depressão, esquizofrenia, etc.) com os padrões aberrantes de alimentação e preocupação com a aparência encontrados nessas patologias.
A imagem perfeita e inatingível do belo representado pela magreza, cada vez mais veiculada pela mídia, bem como a profusão de publicações leigas sobre dietas para os mais variados fins, contribuem para o aumento da incidência desses distúrbios, especialmente nos países desenvolvidos e entre as classes sociais mais favorecidas.
Embora a anorexia e a bulimia nervosa sejam atualmente consideradas como de etiologia primariamente psiquiátrica, a frequencia e gravidade de suas complicações médicas requerem pronta participação do clínico.
A instituição cuidadosa de uma dieta balanceada, sem provocar aumentos bruscos de peso, que pode ser um fator de ansiedade no paciente anorético, requer a participação de nutricionista capacitada.
Nenhuma proposta terapêutica será efetiva sem o acompanhamento psicológico, seja psicanálise, terapia comportamental, terapia familiar ou a associação de dois ou mais métodos.
Fica clara, então, a necessidade de uma equipe multidisciplinar integrada para o atendimento e apoio a esses pacientes, cujo período longo de seguimento as vezes apresenta-se como um desafio e as vezes como verdadeiro pesadelo.
Fonte:Distúrbios alimentares na adolescência
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